Freguesia de Ourentã - Cantanhede
  
                               
A sua ancestralidade deve ser bastante remota, embora careçamos das provas convenientes. Freguesia de solo ubérrimo, farta de água aqui fixado.
Segundo testemunhos dos irmãos Alberto e António Oliveira dos santos, teriam sido encontradas numa surriba feita há anos nas traseiras da casa do primeiro, muitos fragmentos de telha, tipo “tegulae” e bocados de mós manuais, o que nos leva a supor a existência de Ourentã na época romana. Não sabemos com que base histórica também “À Descoberta de Portugal” registra que nos seus limites existe a nascente das sete Fontes, com vestígio do seu aproveitamento na mesma época.
Porém, e pelas razões já apontadas, estas terras deviam ser já povoadas muito, e muito antes da chegada das legiões de Roma. Lá estão os Brejos, palavra de origem celta, de “braucum”, sinónimo de terra húmida, lodosa, alagadiça, como efectivamente eles são.
Começar-se-ia a fixar o povo, a nosso ver, no cabeço onde hoje fica a igreja, correndo-lhe aos pés as águas do ribeiro, fonte de vida, e, do alto, alongando os olhos, visualizava, de relance, as terras que lhe davam pão e vinho, o gado que pascia, as hortas ali à mão, o inimigo que se aproximava. Em nossa opinião, Ourentã nasceu, pois, lá em cima. Concordamos com o Doutor Nelson Correia Borges. Como se escreveu já, aí encontram dois terços da população.
O seu perímetro era, no século passado maior embora de povoamento mais disseminado. Hoje está, de novo, em recuperação: a casa de Manuel Navega, na junção de rua da Moiteira com a da Machada, rumo à Lapa, foi assente sobre os caboucos da que fora de minha bisavó. Eglantina Pereira construiu a sua no Corgo, Já próximo de onde, outrora, existiu certamente a de Francisco José de Seiça a que se refere o dr. Viriato Sá Fragoso em A freguesia da Pocariça, a propósito de um dos muitos ex-votos dantes existentes na Capela de S. Tomé, e que o Padre António Manuel marques na sua Monografia reproduz.
Os árabes deviam ter dominado esta freguesia tão junto a Cantanhede. Há, na sua área, na zona hoje vinhateira, topónimos como Almargens que vem do árabe “al-marj”, sinónimo de terra de pastagem, prado. As alçarias, de “al caria”, a aldeola; Almoinhas, já mais para a Pocariça e Cantanhede, de “al munia” casa, herdade. O Dr. Carlos Manuel Simões da Cruz pões mesmo a hipótese destas zonas e outras circunvizinhas serem outrora habitadas e terem a sua igreja, admitida por alguns como soterrada no Vale d’Igreja, onde há tempos, numa surriba, teriam aparecido ossadas. No entanto, seria possível que o seu cemitério fosse na zona do Beato, junto à Pocariça, onde se situaria uma necrópole luso-romana.
Também no aspectos etnográfico encontramos aqui, e mais acentuadamente na Gândara contígua que os mercados aculturam, sinais mouriscos ou pseudo-mouriscos no vestuário, como se fora reminiscências do passado: as mulheres casadas usam longas vestes e tapam, com um lenço, toda a cabeça, salvo os olhos, o nariz e a boca como se fora a sua defesa contra a agressão física das areias dunares. Convenhamos, no entanto que, segundo a Doutora Fernanda Delgado Cravidão, o povoamento da Gândara é recente, muito posterior aos árabes. Mas que a aridez a secura dos solos, o continuo avanço das dunas hoje contidas, se assemelha ao Norte de Africa e, que pelo menos por este motivo, deu aos seus habitantes características físicas e alguns hábitos similares, não temos dúvida.
Em 1064, Fernando Magno, rei de Leão e Castela, cercou e conquistou Coimbra aos Moiros. Deixou-lhes como governador e defensor o maçarabe. D. Sisnando, o qual reorganizou mais terras então no seu termo, entre as quais, possivelmente, Cantanhede e povoações vizinhas. Ourentã não escaparia às tropas de Fernando Magno passando, assim, de novo a ser cristã e repovoada pois que, durante a guerra, há sempre certo ermamento.
Erecta ou reerecta a primitiva igreja de s. Pedro de Cantanhede, foi esta doada em Maio de 1087 por D. Sisnando, autorizado por D. Martinho que interinamente dirigia a Diocese de Coimbra por morte do Bispo D. Paterno e dos Cónegos da Sé, ao Subdiácono Lourenço com a condição de serem reservados para aquela os réditos pontificais.
É portanto provável que, após a reconquista, também aqui em Ourentã se edificasse ou reedificasse um pequeno templo ou capela, subordinada à igreja de S. Pedro de Cantanhede e, a par de tal vinculo, a própria povoação.
Porém, tal dependência ter-se-ia tornado insuportável e um espírito emancipalista em relação a Cantanhede terá provocando uma “guerra”. Este desejo de autonomia, em nossa opinião, teria pensado na decisão do bispo de Coimbra ao ordenar, em 3 de Janeiro 1299, em S. Martinho do Couto, que “os moradores de Ourentã viessem à missa à sua igreja matriz de Cantanhede no Domingo de Ramos e dia da S. Pedro. Nos restantes Domingos e festas teriam missa na capela de Ourentã, onde lhes seriam administrados os sacramentos (T.T., Sé de Coimbra, 2º. Incorp., nº2374). Este documento precioso indicia que:
 
1.    Há setecentos anos Ourentã não tinha igreja;
2.    Possuía, contudo, a sua capela e talvez desde pouco depois da reconquista;
3.    Um forte esforço autonómico se verificava já então, ao ponto de serem obrigados a irem à sua igreja de Cantanhede somente dois dias por ano, dando-lhe o Bispo, como contrapartida, a garantia de terem toda a assistência espiritual nos restantes Domingos e festas do ano na capela da sua terra, conforme era hábito.
 
No “Catálogo de todas as igrejas, Comendas e Mosteiros que havia nos Reinos de Portugal e Algarves pelos anos de 1320-1321, com a lotação de cada uma delas. Ano de 1746, Bispado de Coimbra, Arcediago do Vouga, p. 55, constam igrejas vizinhas como a de Stº André de Cordinha taxada em 70 libras, S. Martinho de Murtede, em 50 e a Vigaria da Igreja de S. Pedro de Cantanhede em 60 porque, conclui-se, não existir ainda a de Ourentã.
Não consegui descobri quando e onde foi construída a igreja anterior à actual, mas sabemos que pelo menos em 1612 já existia, visto que foi nesta data que se iniciou o mais antigo livro dos assentamentos se baptista conhecido.
No aspecto religioso – e os pederes nessa época tantas vezes se uniam no domínio dos povos – estivemos ligados, pois, á igreja de S. Pedro de Cantanhede acompanhando-a nas suas vicissitudes. Assim, D. Crescónio II, bispo de Coimbra e sua diocese, recebe como doação de D. Raimundo, Conde da Galiza, que superintendia no Condado Portucalense, o Convento da Vacariça que incluía muitas igrejas (…), algumas junto a Ourentã como Serpins, Murtede e Escapães (?). Não consta Cantanhede e, implicitamente, Ourentã pelas razões apontadas atrás.
Muito posteriormente D. Afonso III “fez doação ao Mosteiro de Lorvão do padroado da Igreja de Cantanhede, a qual a Abadessa e mais religiosas por acordo deram depois a esta Sé em satisfação de muitos dízimos e primícias. Portanto voltamos à origem, tendo-a o bispo D. Américo unido de novo ao Cabido, união confirmada pelo Papa Paulo II, havendo, no entanto mais tarde, substituído pelo Papa Paulo II, havendo, no entanto, mais tarde, substituído a vigararia por curato, efemeramente cremos. Contudo, saliente-se deste já que, embora o poder religioso pudesse ter bastante influencia na autonomia administrativa ourentanense, não se nos afigura, neste caso, ser agora per si determinante.
Vimos atrás que D. Afonso II nas Inquirições fizera de Cantanhede foro perpétuo, no qual incluía Ourentã. É que os mosteiros e ordens religiosas tiveram aqui pouca implantação, ao contrario do que acontecia em Cordinã, Murtede e Serpins. Nas duas primeiras preponderavam o Mosteiro de santa Cruz de Coimbra e o de Santa Maria de Celas, enquanto em Serpins Grandes e Pequenos se impunha o Mosteiro de Santa Maria de Lorvão. Registe-se no entanto, que a igreja de Serpins pertenceu creio que sempre à Sé Coimbra, pois lhe foi doada em 12 de Julho de 1086 pelos fundadores Martinho Iben Amad e sua mulher Munnia Zulemen. Dela resta como relíquia o tímpano românico, incrustado a meia altura interior da parede lateral direita ao altar-mor da actual.
Ourentã era, portanto, terra regalenga, integrava-se no reguengo cantanhedense, onde o rei podia exercer plenamente os seus poderes. Ao Clero e ordem religiosas restavam-lhes, ás vezes, os templos e algumas propriedades que a piedade dos devotos levava a doar-lhes ou vender-lhes. Referir-nos-emos mais à frente a alguns destes casos.
Quando D. Fernando, em 1375, doou o reguengo de Cantanhede ao irmão de D. Inês de Castro D. Álvaro Pires de Castro, sem dúvida que inclui Ourentã. O mesmo aconteceria com todos os futuros donatários: Gonçalo Gomes da Silva que vendeu a D. Filipa de Lencastre, logo à Coroa. É então que, em 1392, com o consentimento do marido, D. João I e de D. Afonso, filho deste, a mãe dos “Ínclitos Infantes” a doa a D. Martinho de Meneses e a sua mulher Teresa Vaz Coutinho, para sempre, filho netos (…).
Cantanhede e, por conseguinte, Ourentã entraram assim, no domínio dos Meneses, descendentes distantes e lendários do rei D. Fruela II de Leão. Seguiram-se D. Fernando de Meneses, D. Pedro de Meneses que, sendo o 3º Senhor de Cantanhede, vai ser o seu 1º Conde como gratificação de D. Afonso V por o ter servido na batalha do Toro, D. Jorge de Menezes, D. João de Meneses Souto Mayor, a quem D. João III fez couto de caça todo o termo da dita sua vila, mais tarde confirmado por seu neto D. Sebastião. O 7º. Senhor de Cantanhede não foi o filho de D. João, D. António de Meneses, por haver sucumbido em Alcácer-Quibir, mas, sim, o filho deste, D. Pedro de Meneses, cujas confirmações de Conde e direito de coutada lhe são concedidas por Filipe II.
E chegamos à maior glória desta nobre família de Cantanhede e seu termo: D. António Luís de Meneses, seu 3º. Conde e 1º. Marques de Marialva, galardão recebido como premio concedido por D. Afonso VI, pela mão da mãe deste monarca, a Rainha D. Luísa de Gusmão, pela intrépida e decisiva acção no redentor dia 1º de Dezembro de 1640 e na Guerra da Restauração que se lhe seguiu, principalmente na retumbante vitória de Montes Claros.
 
TOPÓNIMO
Este topónimo – e actual corónimo, já que designa uma das freguesia cantanhenses – possuirá, com boa dose de probabilidade, uma origem etimológica em raiz latina “auru” (ouro), a qual andara igualmente na génese de topónimos como Ourém (de vila Nova de Ourém), Ourentela, etc. Sobre o tema emapreço se debruçaram já dois autores de outras tantas monografias locais, designadamente o Padre Manuel António Marques e Francisco Dinis. Eis a abordagem do segundo desses autores, onde se registra igualmente uma sugestão, sem sombra de dúvidas poéticas, mas absolutamente insustentável, do primeiro.
“Seu nome parece que tem raiz latina. De “aura” =tontura vertigem? Embora no antanho, antes dos pinheirais gandareses se pudesse ver o mar cujo troar, quando bravo e com vento de feição, nos nítido, como anúncio de chuva abundante – chuva como terra, se diz cá, – não nos parece plausível. De auru = ouro? Como, se nunca constatou que houvesse vestígio do nobre metal no leito das suas muitas ribeiras, no subsolo quer arenoso, quer agilo-calcário a seus pés? Seria do sol que, ao entardecer, a doira, como sugere o Padre Manuel António marques? Ou antes, em fins da Primavera e durante o Verão o outrora mar ondulante dos pães e do restolho estendendo-se a seus pés até Cantanhede, Pocariça e Póvoa da Lomba? É que o plantil intensivo da vinha é recente e há centenas senão milhares de anos toda a zona bairradina da freguesia era predominantemente cultivada de cereais praganosos
 
ORIGENS
A sua origem e quem a baptizou assim? Não conseguiu descobrir. Só conjecturas. Seu nome parece que tem raiz latina. De “aura” = tontura, vertigem? Embora no antanho, antes dos pinheirais gandareses se pudesse ver o mar cujo troar, quando bravo e com vento de feição, nos chega, nítido, como anúncio de chuva abundante – chuva como terra, se diz cá, - não nos parece plausível. De auru = ouro? Como, se nunca constou que houvesse vestígio de nobre metal no leito das suas muitas ribeiras, no subsolo quer arenoso, quer argilo-calcário a seus pés? Seria do sol que, ao entardecer, a doira, como sugere o Padre Manuel António Marques? Ou antes, em fins da Primavera e durante o Verão o outrora aure mar ondulante dos pães e do restolho estendendo-se a seus pés até Cantanhede, Pocariça e Póvoa da Lomba? É que o plantio intensivo da vinha é recente e há centenas senão milhares de anos toda a zona bairradina da freguesia era predominante cultivada de cereais praganosos.
Lendas demasiado ingénuas dizem que, vivendo aqui dois frades, um dos quais bastantes dorminhoco, o outro o acordava incessantemente:
- Ora, Tã!
Fosse como fosse, o nome da povoação aparece pela primeira vez na documentação conhecida, em Março de 1129 na descrição dos termos de uma herdade em Escapães, nos Bários, metade vendida por Sesnando e sua mulher Colunba ao presbítero Odorico, que confrontava a oriente com um arroio que, vindo de Murtede, se dirigia a Alfora (Alfoara), povoação da freguesia de serpins ainda povoada no primeiro quartel deste século, próximo da actual auto-estrada; a ocidente, por uma gândara inculta que continua para Ourentã (ourentana)etc. Porém e no entanto, parece que a noticia mais antiga remonta a 22 de Fevereiro de 1104. Trata-se de um documento de compra Susana venderam a Anaia Vesteres e sua mulher Ermesenda em Ourentã (c. Cantanhede). A minha dúvida está nesta frase: “que habemus in território Colimbrie in loco ubi dicunt Aurentanela”. Ora, para mim, parece trata-se de Ourentã. O texto em latim, vem na documentação com o nº 4.
Posteriormente vária documentação de compras e aforamentos nos seus limites se refere também a Ourentã, assim como nas Inquirições de D. Afonso II nas quais, juntamente com Cantenhede, este rei fazia foro perpetuo: “De Ourencáá faciunt inde fórum per omnia”. Nestas se baseia o foral dado por D. Manuel I em 1514.
 
GEOLOGIA
Quem vem de Mira e passando por Cantanhede, prossiga na mesma estrada 234, rumo à Mealhada notará, logo ao deixar a jovem cidade, que a paisagem vai mudar: o solo arenoso gandarês esbate-se, dando lugar ao progressivamente argiloso; o pinheiro quase que desaparece ou se atrofia, a vinha irrompe, divisam-se as primeiras e pequenas colinas. Uma, embora recentemente suavizada, tem de ser vencida. No seu cimo, onde outrora estivera uma fábrica de cerâmica, ergue-se agora uma residência isolada. No corte ainda há pouco maior e mais visível e semelhante ao da Póvoa da Lomba, com camadas alternadas de margas e calcário margoso, notanmos que estamos na base ou inicio da transgressão, no Liássico, princípio da era secundaria.
Embora deixássemos Cantanhede há menos de um quilometro, estamos já na freguesia de Ourentã, na sub-região bairradina.
Fica, pois, esta freguesia, na parte oriental do conselho de Cantanhede na orla Meosocenozoica ocidental, aproximando-se, a leste do rebordo do Maciço Antigo Hibelico ou Hespérico, integra-se ainda nas duas sub-regiões de Gândara e Bairrada, com franco predomínio desta última.
As chamadas Gândaras de Ourentã e povoa do Bispo com as suas areias do Plio-procedem já das de Serpins, Murtede, Cordinha e Vale de Águas, mas nestas duas ultimas as areias são mais finas e melhor calibradas do que nos areais das Sete Fontes. Aqui os quartzitos são mais grosseiros, de córtex ferruginoso aparecendo muitos seixos. Dai os termos locais de Seixosa e, em Ourentã, Sexal.
Junto à Póvoa do Bispo, na zona da Moleira e, segundo informações, no Carafuncho aparecem arenitos conglomeráticos isolados e soltos antes denominados blocos erráticos, mas hoje chamados residuais ou pseudoerráticos, que alguns utilizam para proteger os seus terrenos dos rodados dos carros de bois e tractores.
No aspecto tectónico, o anticlinal de Cantanhede prolonga-se por toda a freguesia até meio caminho na Lapa e Póvoa do Bispo havendo, depois um abatimento da estrutura monoclinal da Lapa, segundo falha normal oculta pelo Quartenário. A linha de falha parece coincidir, aqui, com a divisão das bacias hidrográficas do Cértoma e da Ribeira de Pelames, no sentido SE/NO.
Olhando à direita e a esquerda, é o mais ou menos suave ondular planáltico de colinas erodidas, verdes na Primavera, vermelho-violáceas com manchas cor de restolho, no Outono, vermelho-amarelados dos “bairros” ou esbranquiçadas nas “caieiras”, no Inverno. É o rebordo ocidental da assentada ou “horst” de Cantanhede.
Bem à nossa frente, o Buçaco com primeira sentinela do Maciço Antigo. Á direita, azulada frequentemente, a Lousã. À esquerda altaneiros, o Caramulo e a Gralheira contígua.
Sob o solo, a nosso pés, ou muitas vezes aflorando mesmo, os calcários margosos do Domeriano Médio-Superior, que, partindo do monoclinal da serra da Boa Viagem, flanco norte, passa pelo norte de Arazede, por Cadima, Lemede e vem, no anticlinal de Cantanhede, até  mesmo à parte baixa de Ourentã. Entre o cemitério novo e o lagar há um afloramento com uma pequena gruta. Há tempos quando abria, na rocha, os alicerces para uma casa de arrumos, Leonel Cipriano Moreira encontrou outra. Na mesma área há poços assentes na massa rochosa, tendo Henrique Oliveira mandado perfurá-la em muitos metros. Junto à estrada para Ourentã, ao entrar na freguesia de Cordinha, Etelvino Marques, deste lugar, em busca de água explorou uma pedreira de calcário margoso.
Porém, a partir de Ourentã no seu planalto e pequenos vales, estas formas de Jurássico desaparecem dando lugar ao Piloceno com solos arenosos ou areno-argilosos, bastante produtivos a zona freática pouco profunda. São as nossas gândaras que se estendem deste as freguesias de serpins, Murtede e Cordinhã às da Pocariça e Vilarinho do Bairro (poutena e Torres); solos de agricultura intensiva e muito pinhal. Na Lapa reaparece o Jurássico, mas diferente da parte bairradina. Aflora muito amiúde, sobretudo nos taludes a caminho dos Balanchos, das ribeiras e também da Póvoa do Bispo. O calcário é solto ou, então, estratificado e até com sedimentos de mica. Na fauna fossilizada surgem muitos e grandes búzios, caracoletas ou moluscos similares. As águas, muito profundas normalmente, aparecem com abundância nos vales correndo de orifícios na rocha, ou borbulhando do solo. Este, em baixo, é depósito multimilenar do que as águas carrearam.
No planalto quer da Lapa (Rebolas, Galegas e parte das Chaves), quer no Pacinho, o solo é avermelhado como se fora resultado da decomposição do calcário profundo ou, melhor, do próprio lapiás. Embora em Balditos, no aspecto agrológico, venha considerado “argilo-arenoso pobre pouco profundo”, a mim parece-me bastante produtivo, talvez devido às correcções efectuadas através dos tempos.
 
ARQUEOLOGIA
Bouças               
1. Povoado: Villa (?)
Cronologia: Proto-História: Romanização
Acesso: Estrada que a sudoeste da povoação de Ourentã, estabelece a ligação à Pocariça, passando pelo poço do Lobo. Á direita, em frente às instalações do comércio da madeira.
2. Geomorfologia: Topo de elevação muito suave.
Substrato rochoso: Margas e calcários margosos de Vale das fontes, em limites com areias de Cantanhede (f. 19ª – 1: 50000)
Hidrologia: Ribeira dos Palames nas proximidades.
Cobertura vegetal: Zona de vinhas, em limite com a área urbana.
3. A sudoeste da povoação de Ourentã, em área de relevos ondulados, atravessados pela ribeira dos Palames e ocupada por vinha, ocorrem à superfície materiais líticos e cerâmicos que indiciam várias ocupações no local. A área de dispersão dos materiais parece confinar-se à pequena elevação à direita da estrada e imediatamente a seguir ao curso de água que a atravessa. Em leira lavrada, orientada para o norte, em limite com caminho e com pinheiro e sobreiro, registro para elevada concentração de materiais cerâmicos e de construção (tegulae, imbrices e elementos de coluna); de cerâmica doméstica comum, pesos de tear e escória, de cronologia romana.
Ocorrência igualmente de cerâmica de horizontes cronológicos anteriores: cerâmicas castanhas e negras, de fabrico manual, arenosas, muito grosseiras, com desengordurantes de grande calibre. Associam-se a significativo material de sílex e quartzito. Estas cerâmicas tanto poderão pertencer a um horizonte da Idade do Ferro, como, eventualmente, a uma ocupação anterior, pois desconhecemos um quadro de referência para a área.
Dos materiais líticos associados destacamos lascas de descorticagem, várias lascas simples (algumas de quartzito), um número de lascas, um núcleo prismático, lâminas e lamelas com retoque e vestígios de uso, e um furador (?) sobre lasca com pequenos retoques laterais na zona terminal.
Registro, ainda, para cerâmicas escuras de fabrico a torno, muito micáceas, algumas com decoração, e de cronologia indeterminada, mas recorrentes em todo o concelho.
4. Museu da Pedra do Município de Cantanhede.
Brejos
1. Povoado
Cronologia: Proto-História (idade do Ferro?)
Acesso: Estrada que liga Ourentã à Pocariça, pelo Poço do Lobo. A seguir à primeira curva e contracurva (zona de Paula), após caminho que leva ao limite NW da povoação.
2. Geomorfologia: Vertente média/baixa em declive suave sobre a ribeira de palames.
Substrato rochoso: Areais de Cantanhede em depósitos de terraçoes fluviais (f.19ª – 1:50 000)
Hidrologia: Ribeira de pelames nas proximidades
Cobertura vegetal: Zona de vinhas e algum pinhal
3. Em zona de vinhas e pequenas manchas de pinhal, atravessadas pela estrada que liga a povoação de Ourentã à Pocariça, pelo sitio do Poço do Lobo, ocorrência de material cerâmica e lítico de época proto-histórica. Vários fragmentos de cerâmica acinzentada, de pasta micácea, com desengordurante de médio calibre e de fabrico aparentemente manual.
O material lítico é composto, para além de várias lascas simples, por uma pequena lasca de sílex com retoque bilateral, unifacial, parcial, e uma lasca de quartzito com retoque lateral, uifacial, parcial, que se de núcleo a, pelo menos uma pequena lasca triangular.
4. Museu da Pedra de Município de Cantanhede.
Cabeça de canos
1. Jazida
Cronologia: Pré-História Antiga (Paleolítico Médio)
Acesso: Ao km 18 da estrada Cantanhede-Mealhada, à direita, em caminho que leva ao marco geodésico.
2. Geomorfologia: Topo de cabeça dominante.
Substrato rochoso: Calcário margoso de lemede em limite com margas e calcários margoso de Vale das Fontes (f. 19ª – 1:50 000)
Hidrologia: Regueira da Espinheira, tributaria da vala da Varziela nas proximidades sul.
Cobertura vegetal: Zona de Vinha
3.Nas proximidades do marco geodésico do Cabeço dos Canos, em relevo inserido em zona de calcário margoso, ocupado por vinhas, mas apresenta grande concentração de seixo e cascalheiras rolados que indicam terraços plistocénicos recolhemos, material lítico (quartzito) que autoriza inserção Pré-Histórica Antiga.
Destacamos um seixo quartzitico, afeiçoado unilateralmente, muito erosionado e com grande patine, um núcleo de lascas sobre seixo quartzitico e um possível núcleo levallois.
4. Museu da Pedra do Município de Cantanhede
Chão da fonte
1. Casal (?)
Cronologia: Romanização
Acesso: estrada principal para Mealhada à direita, do centro de Ourentã, rumo à Cordinhã, escadas centenas de metros à esquerda.
2. Geomorfologia: Rebordo de plataforma sobranceira à ribeira das Sete Fontes.
Substrato rochoso: Areias de Cantanhede em deposito de terraços fluviais (f.19ª – 1:50 000)
Hidrologia: Ribeira das Sete Fontes de 500 metros, a norte, e ribeira das forcadas e cerca de 300 metros, a sudoeste.
Cobertura vegetal: Zona urbana com quintais.
3. Zona urbanizada com quintais confinantes com estrada principal, nas proximidades do cemitério. Nas traseiras da casa do senhor Alberto Oliveira dos santos foram postos a descoberto, numa surriba, muitos “fragmentos de telha tipo tegulae e bocados de mós manuais”, segundo referência de Francisco Dinis (1995:30). Em contactos estabelecidos com o proprietário António de Oliveira Santos, foram-nos confirmados estes achados, bem como o aparecimento, no seu quintal com estufa, de enorme quantidade de cerâmica do mesmo tipo e de alguns fragmentos de pederneira, assim como um machado de pedra polida. O artefacto lítico é de anfibolite, apresenta secção elíptica e fractura proxima. Mede 9 cm de comprimento e tem de largura de gume 4,5 cm. Apresenta ligeira incisão das superfícies, provavelmente resultante da sua utilização como afiador.
Prospecções levadas a cabo na área confirmam a ocorrência de materiais cerâmicos de construção e cerâmica doméstica comum, de cronologia romana, por uma extensão difícil de determinar, atendendo ao núcleo urbano aí implantado.
4. Museu da Pedra Municipal de Cantanhede; machado de pedra polida na posse de S. Alcides Santos, de Ourentã.
Pinhal do Frade
1.Povoado
Cronologia: Pré-História recente; Proto-história (?)
Topónimos: Alçaria; Almoinhas; Lugar mais próximo: Pocariça; Freguesia: Ourentã
Acesso: Caminho que parte do extremo SE da povoação da Pocariça e se dirige para sul. Ultrapassada a ribeira de Pelames, em zona de bifurcação do caminho, segue-se o da direita. O sítio começa a escassos 100 metros, à esquerda, Já em território pertencente à freguesia de Ourentã.
2. Geomorfologia: Vertente suave virada a poente e sul.
Substrato rochoso: Areias de Cantanhede em depósitos de depósito de praias antigas e terraços fluviais, limite com margas e calcários margosos de Vale das Fontes (f.19ª – 1:50 000).
Hidrologia: Regueira dos Pelames, que alimenta a ribeira da Varziela.
3. A sudoeste da povoação de Pocariça, em vertente suave a poente, e em área ocupada por mancha de pinhal, particularmente em duas propriedades recentemente plantadas, são visíveis vestígios de ocupação antiga. Prospecção, levadas a cabo em 2001, possibilitaram a recolha de diversos espólio arqueológico cerâmico e lítico. Não se encontram quaisquer estruturas, embora se identifiquem algumas argilas de revestimento de eventuais edificações perecíveis.
A cerâmica predominante é grosseira e muito grosseira, com desengordurantes de grande calibre, embora ocorram raros fragmentos de textura mediana. As cores variam entre o bege, o castanho e o alaranjado, em peça de má cozeduras. As pastas são arenosas e o fabrico é manual. A maior parte dos fragmentos são lisos.
No grupo das cerâmicas grosseiras registámos os cento e vinte e duas panças lisas e sete panças decoradas com diferentes técnicas como a plástica, a incisa e a impressa. Registámos, ainda cinco bases de fundo plano simples, um fragmento de colo, doze bordos verticais, alguns pertencentes e peças de grandes dimensões e a formas fechadas, entre outros de formas abertas de bordos fechados. De destacar dois bordos, um vertical e outro reentrante, ambos com aplicação de pegas mamilares, imediatamente, no inicio da pança. De referir, ainda, um bordo indeterminado com decoração incisa sobre o lábio.
No grupo de cerâmica mediana, de fabrico manual, identificamos duas panças e um bordo indeterminado.
O material lítico revela o aproveitamento de seixo e de nódulos de sílex. Aparecem várias lascas de descorticagem, muitas lascas de pequenas e média dimensão, aparentemente não retocadas, e várias pequenas lascas de reavivamento. Ocorrem, também, algumas lascas de quartzito e quartzo, um núcleo, várias lascas retocadas, com os sem entalhe, e quatro pecas talhadas em quartzito, extremamente patinadas. Como materiais líticos polidos registámos um elemento de mó manual, um percutor/polidor sobre seixo e uma enxó de pedra polida, de gume afiado e com fractura distal.
O povoado estende-se para sul, até à zona denominada Almoinhas, em limite com área de vinha. Aqui em pinhal recentemente plantado, sobranceiro ao caminho, continuamos a recolher espólio cerâmico aparentemente semelhante as cerâmicas mais comuns do primeiro núcleo, um deles também com decoração incisa, a lembrar peças do Neolítico da Junqueira e do Pinhal do Reverendo Margato (figueira da Foz).
Recolhemos ainda alguns fragmentos cerâmicos de cronologia romana. Estes poderão ter vindo, por arrastamento, de provável área de ocupação situada mais a noroeste. Não podemos, no entanto, descartar a hipótese de toda a área de mancha florestal a que, genericamente, apelidam de Pinhal do Frade, e hoje, divide administrativamente entre as freguesias da Pocariça e Ourentã, ser uma única estação arqueológica com vários níveis de ocupação, por vezes, parcialmente sobrepostos.
 
POVOAÇÕES EXTINTAS
 
RAMILO E RECONCO
A primeira citação documental de Ramilo aparece em 23 de Dezembro de 1338, quando D. Afonso IV passa carta de confirmação do aforamento que Gomes Martins, Prior de Cantanhede, fez a favor de Afonso Eanes e mulher, Maria Anes, e Domingos Pires e sua mulher, Maria Martins, da herdade do Arneiro do Ramiro (Ramilo), termo de Cantanhede, onde se juntam as águas da Póvoa do Bispo com as da Lapa.
Era, pois, velha de séculos tal povoação. Teria inicialmente duas casas para os casais foreiros. Conta que houve uma capela da qual não há vestígio nem ninguém se recorda ao certo. Era do povo e dedicada ao Senhor Santo Cristo. Da sua existência não conseguimos confirmação.
Em 1758 tinha três vizinhos e seis em 1854.
Ainda nos meados do século passado e neste era habitado. Na sessão da Câmara de 8 de Julho de 1867 entrou um requerimento de Manuel Marques carvalho e mulher, do Ramilo, pedindo aforamento de um pedaço de terra no sítio do salgueiro, que seria de um dia de lavoura, e de que já andava de posse. A Câmara, atendendo a que o requerente já andava de posse do terreno, julgou o mesmo “não ser necessário para logradouro e uso comum dos povos” e deliberou mandá-lo vistoriar para efectuar o aforamento requerido. Foi tal tarefa feita no dia 23 daquele mês e ano pelas seis horas da manhã pelo Escrivão da Câmara e os peritos Joaquim José Pereira e Manuel Francisco Carreira, aquele da Venda Nova e este do Bolho. Perante a pouca valia atribuída, a Câmara resolveu, na sessão de 8 de Setembro do ano seguinte, dispensar os anúncios nos jornais da sede de Distrito e, tão só, que se afixassem editais para o aforamento em hasta pública nos paços do Concelho.
A 17 de Novembro de 1868, a Câmara de Cantanhede manda construir na Ramilo uma ponte de alvenaria com 5 metros de largura, assim como a estrada. Comprometia-se a colocar lá a alvenaria. Foi a arranque da pedra necessária arrematado por Manuel Cardoso, de Quiaios, segundo um requerimento seu em que pedia o prazo de 20 dias para a execução.
Em 1870, o Regedor do Bolho oficio á Câmara informando-a que as grandes cheias haviam atulhado a ponte com aluviões estragando o aterro da mesma e bem assim a estrada que da Venda Nova para ali se dirigia.
Havia no Ramilo um Curral do Concelho, talvez integrado no da Póvoa do Bispo. Já a ele se referiu o Dr. Viriato de Sá Fragoso. A ele me referirei noutro capítulo. Ora a provável existência de uma capela, de curral para o gado prevaricador e ainda o facto de haver junto à sua ribeira nove moinhos a que, normalmente, correspondia um fogo a cada, leva-nos a supor uma autêntica povoação e não um casal solitário, como aconteceu já no nosso tempo.
RECONCO
Não era uma povoação mas apenas um casal, junto a uma azenha de duplo cubo existência próximo do lavadouro da lapa, onde se juntam a água deste com da vala que diziam do crespo da venda Nova, a quem o mesmo casal pertencia por haver comprado a Manuel Navega, da Antes, na década de trinta deste século. O último moleiro arrendatário foi José Medina, há pouco falecido na Póvoa do Bispo, onde montara uma atofona a motos, próximo do marco geodésico.
A casa do reconco, que já ameaçava ruína, foi demolida pelos herdeiros de Manuel Ferreira Crespo no “Verão Quente” de 1975.
SANGUINHEIRA
Pequena povoação também na zona ribeirinha, onde havia azenhas, ficava entre o Ramilo, a Venda Nova e o Espinheiro, onde se juntavam as águas da Ribeira do Ramilo com Viso. Segundo informações de pessoas bastante idosas possuía, pelo menos, duas casas. Nada existe.
Já não pertence à freguesia de Ourentã, mas ao inicio das de Bolho e serpins.
Fico confunso quando a Drª Ana Elvira Poiares Baptista se refere ao vale de Assanheiras se não seria Sanguinheira. Porém, em Serpins falara-se em Assanheiras também.
A 17 de Novembro de 1868ª Câmara municipal de Cantanhede determina, após indicar as condições da construção da ponte do Ramilo: “Na extremidade Sul na levada que se dirige aos Moinhos da Sanguinheira far-se-á um pontão da largura de um metro e altura de oitenta centímetros desde o leito da mesma levada”:
Na Sanguinheira limite do Ramilo, termo de Cantanhede e junto à Venda Nova, possuía uma importante família de Ourentã uma quinta, casas suas pertenças e dois moinhos. Isto em 1740.
VISO
Outro povoado recentemente desaparecido foi o Viso, junto à lapa, após um vale um tanto profundo, a nascente, na rampa já a caminho de Serpins, a cuja freguesia pertence. Contudo, estava na linha divisória e as afinidades sócio-económicas e afectivas com Ourentã, através da Lapa, eram tantas que houve por bem incluí-lo neste trabalho.
Ao Viso, assim como a Ourentã e Lapa, se refere um antigo documento descoberto na Torre do Tombo pela Drª. Elvira Poiares que, pelo seu interesse, e como a devida vénia, transcrevemos no fim. Trata-se do aforamento de 1341 de um maninho no Espinheiro Velho, feito por D. Afonso IV a João Domingos da Lapa, e sua mulher Clara Vicente, residentes em Serpins Grande, a Francisco Vicente e sua mulher Margarida Domingues, moradores em Serpins Pequeno, e a Pêro Pires e sua mulher, Margarida Domingues, moradores na Lapa. Na sua localização se diz que fica “no logar que chamam o spinheiro uelho termho de Cantanhede do qual estes son os termnhos pello logo que chamam arnhaynho e como se uem ao viso e como sse vay aa carreijra dourema”.
A provar o antigo relacionamenti com Ourentã esta o facto de Jerónimo Alvres Lavrador e sua mulher, Leonor Pires, moradores na Póvoa do Viso, possuírem e vendem por seis mil reis em 27 de Abril de 1565 ao Cabido da Cidade de Coimbra umas casa, pardieiros com seus currais, assento em pedra, telha e madeira no lugar Ourentã, termo de Cantanhede.
O Dicionário Geográfico regista os moinhos do Viso já como da freguesia de Serpins com “oito vizinhos e com as mulheres, filhos, filhas e criados são vinte uma pessoa”: Pertencia, contudo, com o Espinheiro, Quinta do Olho, Cova da Moura e porto Barroca ao termo de Cantanhede, a que estava submetido o Juiz Pedâneo que talvez abrangesse a Lapa.
Em 1854 continua registado na g«freguesia de Serpins com três fogos.
No vale fértil e abundante em água havia, pelo menos, sete azenhas duas das quais, inicialmente de duplo tubo, do falecido Joaquim Francisco Arromba ainda há anos funcionavam. Outr moinho ainda mais acima estava agregado a uma quinta de um tal Julião Arromba, de Sepins.
Havia no princípio desta século pelo menos ainda duas casas de lavrador. A maior, a jusante da citada quinta, tinha azenhas e era dos Quintas, sogros do há muito falecido José Filipe Fernandes, da Lapa. O genro deste, António Gomes da Costa, de Murtede, e já desaparecido também, vendeu ainda há poucos anos este prédio ao meu primo e afilhado António da Encarnação Gonçalves, emigrante em França.
O avô paterno dos irmão Carvalho (Santa Branca), residentes em Ourentã, era natural do Viso, tendo vindo para a Lapa (Santa Branca) quando o pai emigrou para o Brasil.
Em 1960 ainda lá vivia com sua família na hoje arruinada casa, João Moço, valador que, vindo de Torre, Montemor-o-Velho, a arrendara a Gomes da Costa. Posteriormente alugara outra na Lapa, para onde se mudou. Foi a última família do Viso. Onde outrora havia um povoado com azenha e bastantes terras arroteadas, compeiam agora e plantações de choupos e eucaliptos. Será que, com a recente estrada, o Viso renasça?
CASAL DO ENXUDRO
Ao consultar o Dicionário Corofráfico de Portugal Continental e Insultar de Américo Costa, ed. De 1929-49, 8º vol., deparei, a p. 846 com a existência do Casal do Enxudro ou Enxuldro na freguesia de Ourentã. Nunca tal ouvira ou lera. Após aturadas investigações orais, descobri que, efectivamente, existira esse casal ou lugarejo denominado Enxudro ou Enxuldro. Foi uma velhinha já falecida, Maria castilha e Manuel Gonçalves, ambos da Póvoa do Bispo que me elucidaram. A zona agrícola e florestal ainda hoje é conhecida por esse nome. Fica a noroeste da Póvoa do Bispo a uns duzentos metros da estrda Cantanhede – Vilarinho do bairro, numa pequena linha de água vinda das gândaras de Ourentã, do lado esquerdo de um caminho carreteiro que se dirige à Poutena e Torres.
Junto de uma pequena vala e num pinhal ao lado, vêem-se ainda resto de muros. Aí existiu uma azenha e, pelo menos, uma casa de habitação nos fins de século passado. A senhora acima indicada lembrava-se de, ainda criança, irem por um carreiro lá beijar o Senhor. Por outro lado, Manuel Gonçalves relembrou conversas de seus antepassados sobre festas familiares ocorridas no Enxudro na altura da matança do porco.
Segundo Pinho Leal, in Portugal Antigo e Moderno, Enxúdrio significa, em português antigo, fazendinha cerrada, quintalzinho, hortejo ou conchoso, próximo de casa.
Na acta da sessão da Câmara de 27-01-874. fl 85/vº, se regista que Manuel João da Cruz, da Poutena, requereu autorização para fazer um aqueduto na estrada que ia da Poutena para a Póvoa do Bispo para esgoto das águas de um prédio que possuía no sitio do Enxudro.
 
CURIOSIDADES
 
CAPELA EXTINTA 
Existiu outrora uma capela muito pequena dedicada a N.ª Senhora da Conceição, esta situava-se no local onde é agora parte da casa de Filipe de Assunção Fernandes (Largo N.ª Sr.ª da Conceição).
Devido ao aumento demográfico e a outros factores foi necessária a construção de Nova capela noutro local.
 
FREI MANUEL DOS SANTOS 
Foi em Ourentã, em 1672, que nasceu frei Manuel dos Santos , monge cisterciense de Alcobaça, e que viria a desempenhar as funções de Cronista-Mor do Reino de Portugal.
 
PÁROCOS
 " Desde que, por obrigação determinada pelo Concílio de Trento, começou a haver na Freguesia o Arquivo paroquial, desde 1613 até aos nossos dias, foram, sem interrupção, trinta e dois os sacerdotes que a paroquiaram.
    Dai para tras, não conhecemos qualquer documento que, sobre esse assunto nos possa elucidar.
    Os que constam do arquivo, por terrem lavrado os assentos de Batismo, Casamento e Obitos, foram os seguintes :
I - De1613 a 1642 : António Jorge.
II - De 1643 a 1656 : Simão Valdargo Ribeiro.
III - De 1656 a 1662 : Lázaro Francisco, natural da freguesia de Ventosa do Bairro, filho de André Francisco e de Margarida Fernandes. Foi ordenado Sacerdoce em 1626.
IV - De 1662 a 1674 : foi Pároco, pela segunda vez, Simão Valdargo Ribeiro.
V - De 1674 a 1705 : Francisco de Figueiredo que faleceu em 4 de Fevereiro de 1705.
VI - De 1705 a 1709 : José Matias de morais, natural da Pocariça, filho de Manuel Rodrigues Robalo e Isabel Francisca.
VII - De 1709 a 1707 : Manuel dinis de Melo, natural de Ourentã, filho de António Francisco e de Ana dinis.
VIII - De 1717 a 1723 : Manuel Marques de Oliveira, natural da Vila de soure, filho da António Lopes de Oliveira e de Madalena Pinto. Ordenou-se em Março de 1691.
IX - De 1723 a 1724 : António de Morais, natural da Povoa do Bispo, desta freguesia, filho de António de Morais e de Isabel Francisca.
X - De 1724 a 1736 : Francisco Gomes da Silva, natural de Ourentã, filho de Manuel Marques e de Isabel da Silva.
XI - De 1736 a 1761 : Hipolito Dias, natural da Freguesia de Almalaguês, filho de Manuel Dias e de Maria Simões.
XII - De 1761 a 1781 : João Marques, natural de Ourentã, filho de Silvestre Marques e de Antónia Francisca. Ordenou-se em 1742.
XIII - De 1781 a 1782 : António José de Almeida Coelho.
XIV - De 1782 a 1788 : Francisco Lopes da Silva.
XV - Durante alguns meses de 1788 : Bernardino Henriques de Morais, de Tentúgal.
XVI - De 1788 a 1790 : António Joaquim de Sá Romeu.
XVII - De 1790 a 1798 : Francisco José Torreira , natural de Pocariça, filho de Domingos Rodrigues Torreira e de D. Clara de Morais. Nasceu em Fevereiro de 1731 e faleceu em 21 de Fevereiro de 1798.
XVIII - De 1798 a 1800 : Dionisio Gomes, natural de Casal de Comba, Filho de António Gomes e de Maria Fernandes.
XIX - De 1800 a 1812 : Bernardo de Carvalho e Castro.
XX - De 1812 a 1842 : João Pereira Cordeiro. Faleceu em 10 de setembro de 1842.
XXI - De 1842 a 1844 : Manuel Tavares Ribeiro.
XXII - De 1844 a 1851 : Manuel Rodrigues Murtosa, natural da Quinta da Alegria, freguesia de Covões, filho de Valemtim José e de Isabel da Cruz.
XXIII - De 1851 a 1859 : José Pereira Leitão, natural do lugar de Cova da Moura, freguesia de Vilarinho do Bairro, filho deJosé pereira Leitão e de Ana Maria Pereira. Nasceu a 7 de Novembro de 1820 e foi baptizado a 15 do mesmo mês e ano.
XXIV - De 1859 a 1864 : Pe. José pedro de Melo Coutinho, natural de Ourentã.
XXV - De 1864 a 1865 : Manuel Simões da Cruz.
XXVI - De Fevereiro a Agosto de 1865 : António Maria de Almeida Corte Real, da Pocariça.
XXVII - De 1865 a 1875 : João Moreita de Oliveira Vidal. Durante o ano de 1875 também prestou serviços paroquiais o Pe. José Joaquim de Oliveira Brito.
XXVIII - De 1875 a 1880 : Manuel Cavaleiro Travassos.
XXIX - De 1880 a 1900 : José Pedro de Melo Coutinho, natural de Ourentã.
XXX - De 1900 a1937 : Bento Ribeiro da Fonseca, natural da Pocariça onde residia, filho de Manuel Ribeiro da Fonseca e de Maria Zeferina.
XXXI - De 1937 a 1939 : João Moreira dos Santos, natural de Sepins de que era Párocos e onde residia.
XXXII - De 1939 até o presente [2004], Manuel António Marques, natural de Vila Cã, conselho de Pombal, também Párocos da Pocariça onde reside.
 
 




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